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Jogos de armar

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Para ler ouvindo: Eu menti pra você, mas foi sem querer, Pato Fu

Embora seja fã absoluta de Freud e Jung e tenha feito terapia por muitos anos, sempre gostei de ler sobre experiências de psicologia behaviorista, só pelo espírito de gostar de alguma coisa só por ser impossível. Eu me explico: hoje em dia, tornou-se impensável fazer experimentos como os de Milgram, Harlow ou da Prisão de Stanford sem que uma enxurrada de protestos e dúzias de entidades de proteção aos direitos humanos ou dos animais caia matando em cima dos psicólogos que, principalmente durante as décadas de 60 e 70, em um mundo já perturbado o suficiente pela ferida recente do Holocausto, ainda tinham a liberdade de provar as suas teorias do comportamento humano submetendo indivíduos a situações traumatizantes e com frequência ultrajantes.

Não deixa de ser um pensamento estranho que experimentos que ficaram tão conhecidos, como o do cachorro de Pavlov, sejam tão abusivos e antiéticos. Até hoje histórias dos macacos que tomavam um jato d’água quando queriam pegar uma banana ou do cão que tomava choques aleatórios até finalmente desistir de escapar da jaula (conhecida como Experiência do Desamparo Adquirido) são repetidas em blogs e posts do Facebook, normalmente como argumentação para algum comentário coxinha, como se o caminho a que se chegou a determinadas conclusões sobre a natureza da psique fosse completamente natural.

Nesse sentido, o meu experimento preferido analisa o uso de drogas e ficou conhecido como Ratolândia, o paraíso dos ratos. Bruce Alexander era um estudante de psicologia que entrou em contato com os experimentos de Harry Harlow sobre amor materno (que incluíam privar macaquinhos do contato com a mãe e depois ver se eles se tornavam dependentes em drogas) e se apaixonou: mudou-se do Canadá para os EUA e comprometeu o próprio casamento para poder estudar com Harlow. Chegando lá, descobriu que o mestre era um tirano que maltratava seus alunos e estava frequentemente alcoolizado. Sua atenção se voltou, então, para a pesquisa em vício em entorpecentes. Na época, eram comuns pesquisas de uso em drogas em ratos que “demonstravam” que, se expostos ao contato com as drogas, os indivíduos se tornavam “naturalmente” viciados e até cometeriam suicídio por preferirem a droga ao alimento que era oferecido na gaiola.

Em resultados evidentes para qualquer sujeito que pare para pensar no assunto, basicamente Alexander constatou que os ratos só se viciavam em drogas porque a vida nas gaiolas de laboratório era insuportável e antinatural para eles, e que para se aplicar qualquer resultado desse tipo de pesquisa aos humanos é preciso admitir, em primeiro lugar, que a vida do homem contemporâneo é no mínimo tão ruim quanto a de um animal enjaulado – constatação de que nenhum governo ou corporação sequer aceita ouvir falar. (http://www.stuartmcmillen.com/comics_pt/ratolandia/#page-1)

Qual o sentimento de onipotência (exatamente o que fascinou Alexander ao observar seu professor) experimenta um psicólogo behaviorista? Lendo sobre os experimentos clássicos, comecei a refletir: o que caracteriza um experimento behaviorista? Em primeiro lugar, eles são fascinantes pela sua criatividade: para comprovar suas hipóteses, esses pesquisadores criavam situações hipotéticas que, muitas vezes, não tinham a menor relação com o que deveria ser provado, como o experimento dos falsos choques para apurar se qualquer ser humano poderia se tornar um carrasco nazista. em segundo lugar, seus sujeitos nunca sabiam do que se tratava a pesquisa – as vítimas da supracitada experiência acreditavam se tratar de um teste sobre a resistência humana a choques elétricos – para que os pesquisadores pudessem observá-los mais livremente, e continuavam não sabendo depois.

E por que, então, os experimentos behavioristas eram sempre tão inconclusivos? Porque o ser humano – pelo menos uma parte deles, como bem ressalva Severo Snape – é muito mais complexo do que seus idealizadores supunham. Analisando o comportamento dos indivíduos sob um ponto de vista meramente externo, a psicologia behaviorista se limitou a mensurar suas reações e decisões, sem atentar para as causas, que são individuais. Acontece que as decisões e reações de qualquer pessoa são resultado de uma série de experiências gravadas, consciente ou inconscientemente, que não se podem mensurar. A psicologia behaviorista trabalha com uma série de conceitos interessantes – mas se esqueceu do mais básico deles, o direito do ser humano ao livre-arbítrio: o de que, a qualquer momento, qualquer pessoa pode tomar a decisão de reagir de forma não-automática a um evento, alterar os seus próprios padrões de comportamento e criar pontos fora da curva.

No entanto, eles insistem. E de comentários no Facebook a gerentes de RH sem imaginação, os métodos behavioristas continuam sendo largamente usados e chegam até as manchetes dos jornais, como o experimento que quis relacionar as oscilações de humor dos usuários do Facebook com a natureza das notícias que apareciam no seu feed. Uma experiência que carrega todos os vícios da psicologia comportamental, porque se parte do pressuposto de que o tipo de notícia que se lê na internet é um fator importante no humor de uma pessoa e que o feed de notícias do Facebook é a sua única fonte de informação. Não vou perder meu tempo com discussões sobre a ética da coisa – é até surpreendente que se espere alguma ética de uma empresa de Mark Zuckerberg -, mas um dado estatístico ficou faltando nessa história: quantas pessoas continuaram postando sobre cachorros levando choque e macacos tratados com jatos d’água na rede social depois de elas mesmas terem sido tratadas como porquinhos-da-índia.

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Freud, Jung, Reich

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Para ler ouvindo: Cosmogonia, Memórias de um Caramujo

Datas são estranhas. Por uma estranha conjunção astrológica, faço aniversário no dia do Soldado brasileiro – para quem não sabe, o aniversário do Duque de Caxias, um dos fascistas mais covardes que esse país já teve –, logo eu, que tenho horror a qualquer coisa que lembre nacionalismo, exército, uniforme, bandeira; e dias antes do dia do Psicólogo, o que me levava, na época em que fazia terapia, a dar presentes para a minha psicóloga no meu próprio aniversário.

Fiz terapia durante nove anos. E não adiantou nada. Durante as cerca de 400 sessões a que fui, chorei copiosamente, e ouvi mais de uma vez da minha psicóloga que eu era um caso perdido. Desses nove anos, passei quatro não conseguindo terminar a minha dissertação de mestrado e outros tantos, mais ou menos na mesma época, envolvida com alguém que só me ligava uma vez a cada três meses (sempre que brigava com a noiva, e acabou se casando com ela). Cheguei a parar durante um tempo, por falta de dinheiro – estava sem emprego e, morando na casa dos meus pais, com fast-food e TV a cabo à disposição e sem grana nem para por gasolina no carro, passava o dia em casa e engordei 14 quilos.

Estranha mas não surpreendentemente, a solução para a minha fase depressiva não encontrei na terapia, mas numa outra cidade – foi quando encontrei um emprego e me mudei para Maringá, onde recomecei a vida com uma nova carreira, um novo apartamento e uma nova terapeuta, que não sofria da mesma incompetência da profissional de São Bernardo – mas era muito nova, mais nova do que eu. Se a falta de inteligência e de formação sólida (a maioria das psicólogas que conheço no Brasil, além de ser esmagadoramente formada por mulheres, diz ou escreve coisas que me fazem pensar se alguém realmente precisa de cinco anos de graduação para chegar àquela conclusão) não eram problemas para a jovem freudiana que me atendia, a falta de experiência e até de sair dos limites da cidade de interior sim, e senti dificuldades em conversar com alguém que não conseguiu esconder o choque quando mencionei minha bissexualidade.

De outro lado, também me incomoda a quantidade de bobagens que ouço ou leio sobre psicologia ou psicanálise, que só se compara à quantidade de besteiras que escuto sobre o pensamento marxista ou citações fora de contexto de Nietzsche – o que dá um significado assustador para a expressão “fundadores da pós-modernidade”. Pelo visto, meu professor de filosofia do colégio se esqueceu de dizer que fundar a pós-modernidade significa ser mencionado como nova desculpa para todos os problemas sociais por usuários de internet que nunca leram uma linha de seus livros, e ser culpado por coisas que as pessoas dizem por gente que nem sabe como seus livros se chamam. Uma das razões que me motivam a continuar na minha teimosia de não ter Facebook é não ler comentários de que Freud é o criador de uma desculpa para as pessoas culparem suas mães pelos seus problemas.

Em uma conversa recente, quando mencionei que tinha feito terapia por muitos anos, meu interlocutor interrompeu assustado: “Mas você está de alta, né?” Nunca deixa de ser uma experiência estranha sair do meu círculo habitual e ouvir de novo algumas ideias que pareciam enterradas nos anos 70: a noção de que quem faz terapia é particularmente problemático, maluco ou doente; saber que há pessoas de nível universitário, formadas em Humanas, que desconhecem a existência de diversas linhas de psicologia e que terapia não é tudo igual; que muita gente, pacientes inclusive, acredita que a medicação moderna substitui a necessidade de terapia; e, com frequência, que a terapia é um dinheiro jogado fora, que se obtém os mesmos resultados com atividades mais baratas como ioga ou muay thai. Infelizmente, a terapia ainda é um luxo raro, mesmo em países chamados desenvolvidos. E não deixa de ser uma pena viver num mundo em que se dispõe de um raro instrumento de autoconhecimento e vê-lo menosprezado.

Todos os anos, nessa época, eu penso novamente em fazer terapia. É como se eu realmente estivesse deixando um lado importante da minha vida de lado: para algumas pessoas que conheço, ela chega a ser um substituto da religião. Há exatamente doze anos, eu tive a minha primeira sessão. Há exatamente três eu demiti a minha terapeuta. É estranho lembrar e perceber como aos poucos ela parecia não se importar com o que eu estava dizendo, e fazendo comentários estranhos (sendo que, teoricamente, ela nem deveria dizer nada) até que eu cheguei à conclusão de que aquilo não me ajudaria, pelo menos não naquele lugar específico.
Na verdade, em última análise, a terapia me ajudou sim: demitir a minha terapeuta foi um dos processos mais libertadores pelos quais já passei. E, desde então, minha vida tem melhorado exponencialmente e eu tenho descoberto muito sobre mim mesma, e mudado muito (espero que para melhor). Descobri, finalmente, que não preciso viver presa a nada, nem a ninguém. Foi a primeira de uma série de relações que consegui cortar na minha vida e que aos poucos a fizeram mais leve, mais tranquila, mais feliz. De alguma forma, eu continuo fazendo terapia.

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O que deixamos pelo caminho

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Para ler ouvindo: Vou ver o mar, Nevilton

Toda mudança de casa deixa rastros. Depois da agitação de encontrar o endereço novo, as horas passadas encaixotando roupas, papéis, lembranças, os funcionários da empresa de mudanças que entram atabalhoadamente no seu espaço e carregam os seus móveis como se fosse um pedaço de carne, as horas passadas desencaixotando roupas, papéis, lembranças e pendurando-as de volta no guarda-roupa, arrumando-as de volta nas gavetas, acomodando-as de volta nos ventrículos. É nesse momento que começamos a nos dar conta do que foi perdido. Sempre há um vaso que se quebrou pelo manejo descuidado, uma caixinha que se abriu no caminho e derramou seu conteúdo por pastas e caixotes, um papel desimportante que se jogou fora sem querer. Toda mudança é um exercício de desapego: desapegar-se do antigo quarto, do habitual trajeto ao trabalho, do pãozinho da esquina, e conformar-se a rotinas novas.

O que dizer, então, quando nos mudamos de endereço, mesmo não nos mudando de casa? Me pergunto como deve ser a vida de quem, como um bom hobbit, nunca se meteu em aventuras nem nunca fez nada inesperado. Naturalmente, há contextos em que as questões individuais têm mais espaço do que em outros. Mas, uma vez que essa liberdade, em termos teóricos, existe, no que pensam antes de dormir essas pessoas que só possuem certezas na vida, nunca surpreendem nem decepcionam ninguém? Como deve ser viver livre da enxurrada de cobranças que tenta nos afogar, sempre que improvisamos em cima do roteiro prescrito pelos outros e, antes de tudo, por nós mesmos?

Como o vaso quebrado e o papel perdido, há pessoas que aprendemos a deixar para trás. Não por serem melhores ou piores, mas porque toda forma plástica que se modifica não consegue mais acomodar algumas peças. A cada passo dado, assim como não é possível que todos os móveis caibam na nova casa, não se pode querer que todas as pessoas caibam na sua nova vida. No outro lado, em que eu já estive muitas vezes, é estranho perceber que você não tem mais lugar na vida de outra pessoa. Principalmente porque a maioria das pessoas passa a maior parte do tempo fingindo que nada mudou: aquela resposta evasiva ao convite para a cerveja, a mensagem de aniversário sem nenhuma referência a um evento concreto, o encontro fortuito na rua que não vê a hora de acabar. Sem sequer se mover do lugar, algumas pessoas parecem morar de repente em países muito distantes, e começam a falar com um sotaque e palavras que a gente não entende direito.

Deste lado, o movimento é um pouco menos doloroso, mas igualmente estranho. Como se despedir das pessoas no porto enquanto o navio sai em partida e você descobre que ele se movimenta muito lentamente, e fica ali sem saber em que momento não fica mais tão chato parar de balançar o braço. Como e quando deixar o laço se romper de vez, quando ele simplesmente não faz mais sentido? O Orkut e o Facebook trouxeram a ilusão dessas relações que duram para sempre, das pessoas que são acessíveis a qualquer momento, quando na verdade aquela amizade que, antigamente, se tornava uma carta amarelada numa caixa, hoje é apenas aquela foto minúscula no seu perfil. Até que ponto vale a pena agir como se aquela ligação ainda existisse, ao mesmo tempo em que se cria a consciência de que, se você encontrasse aquela pessoa em outras circunstâncias, vocês provavelmente nunca teriam se falado? Chega uma hora em que a gente fica cansada de fingir: de rir daquela piada antiga que nunca teve graça, de fazer de conta que o namorado da sua amiga não é um babaca, de ouvir o mesmo comentário para a mesma história de dez anos atrás.

Não vale a pena ficar pensando na louça que, quando abrimos a caixa da mudança, descobrimos que estava lascada. Provavelmente ela já estava assim antes de ser empacotada, só você que não percebeu. Da mesma forma, não sabemos por que mantemos nossos relacionamentos. Há cobranças, há sempre alguém tentando te puxar de volta. É dever de educação continuar ouvindo a história que deixou de te interessar, assim como não custa responder àquela pessoa que, sem perceber, deixou de fazer parte da sua vida. Nas primeiras horas de viagem a gente sempre pensa demais naquilo que deixou para trás. Mas, em algum ponto da estrada, a mente se volta para o que está para acontecer. E o que você está prestes a se tornar é sempre muito mais interessante do que você já conseguiu ser, assim como as pessoas que aparecem nos novos trechos do caminho.

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O dia da criação

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Para ler ouvindo: Para animar o bar, Cícero

Isso é o que as pessoas normais fazem no sábado, é o que eu sempre me pego pensando no primeiro sábado depois que começam as minhas férias. Deve ser uma sensação que apenas professores de idiomas e vendedores de shopping compreendem: o sabor da tarde livre de um sábado, inteirinha só para si, e a vida vem em ondas, como o mar.

Qualquer lugar que em que eu escolha passear nesse dia, um sentimento inusitado de leveza e estranhamento permeia tudo o que eu vejo. Neste momento todos os bares estão repletos de copos que se esvaziam rapidamente, numa ansiedade ímpar de esgotar as possibilidades do dia de folga. Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas pelos corredores dos shoppings onde todos os maridos estão regularmente entediados enquanto suas esposas escolhem sapatos. (Há um grande aumento no consumo porque hoje é sábado.) Será que, se tivessem menos sábados livres ao longo do ano, essas pessoas desperdiçariam essa tarde de sol de forma tão indecente?

O sol do sábado tem um calor diferente, eu digo isso com a autoridade de quem tem os seus sábados ocupados de forma produtiva desde a pré-adolescência. As horas são mais longas, e as garçonetes mais lentas, o café tem um gosto diferente. Todas as roupas caem bem: o sábado é esse dia transitório em que serve o vestido de festa e o short da academia, a calça jeans e o sutiã aparecendo numa cor que não combina. Nada parece insensato de se fazer: passar o dia dormindo, ir ao cinema ou andar de bicicleta, tudo é possível, menos se lembrar de que horas são.

É claro que vem sempre alguém querendo estragar o dia com algum compromisso insuportável, “porque todo mundo pode nesse dia”. (Neste momento há um casamento porque hoje é sábado.) Em uma civilização mais avançada tenho certeza de que isso vai ser considerado um crime. (Há uma profunda discordância porque hoje é sábado.) Então aparece aquele que quer que os outros acordem cedo ou tenham horário para acabar de almoçar para fazer alguma coisa que só interesse a ele e que não parece perceber que o sábado é um dia tão perfeito que, em campeonatos normais, não tem jogo de futebol nesse dia.

E, antes de tudo, o sábado é esse dia que parece desdobra-se infinitamente no tempo, porque, uma vez findo, ele redesperta em mais um dia repleto de horas vazias em que se pode fazer qualquer coisa. (Trinta séculos a humanidade lutou pela semana inglesa.) E, como típicos paulistanos divididos entre o restaurante da moda, o cinema, o teatro, o shopping, a animação do SESC e aquela festa de aniversário, esse tudo habitualmente se traduz em apenas nada. E o sabor do sábado é ainda mais delicioso quando ele consiste na possibilidade de jogar algumas horas fora, à beira de alguma coisa banhada pelo sol. (Há a perspectiva de domingo porque hoje é sábado.)

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Festa de Significantes

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Para ler ouvindo: Mãos aos Desolados, O Teatro Mágico

Eu li A insustentável leveza do ser pela primeira vez há mais de vinte anos. E, acostumada com as páginas bem explicadas do realismo romântico e a suavidade das metáforas do realismo mágico, entrei em choque com o texto cheio de esquinas, parágrafos e capítulos curtos que me davam a impressão de já ter dito tudo, eu só não sabia dizer direito o quê. Como todo livro que eu não entendi de primeira, eu o reli muitas vezes. Ainda pré-adolescente, numa era em que dependíamos de videolocadoras (e o dono da videolocadora conhecia nossos pais), só pude assistir o filme alguns anos mais tarde, quando ele me pareceu sem graça comparado à experiência tortuosa diante do texto até eu finalmente ter uma noção do que aqueles personagens estavam fazendo e o que eles queriam.

Como todos os meus escritores preferidos, Milan Kundera escreve cada vez menos. E, como todas as pessoas realmente interessantes do nosso tempo, não dá entrevistas. Não sabemos de suas opiniões sobre questões banais nem políticas do nosso tempo, não sabemos como ele toma o café. Seu único output é de fato a sua obra, que a cada novo romance aparece de forma ainda mais concisa. Seu mais novo romance possui cerca de cem páginas de texto corrido. E, no entanto, o retrato do desencanto de Alain, Ramon, D’Ardelo e Caliban – que lembram uma versão menos verborrágica dos personagens As Invasões Bárbaras – é preciso. Representantes de uma geração de “ateus, para quem a única coisa sagrada é a amizade”, suas relações não se estendem muito além desse círculo restrito e, apesar disso, não são muito íntimas: o que eles dividem são observações sobre terceiros, evitando o quanto podem falar sobre si mesmos.

A Festa da Insignificância contém todos os elementos que tornaram célebre a prosa de Kundera: a galeria de personagens, a divisão de capítulos, o leitmotiv que percorre todo o texto – em A insustentável leveza do ser o “Es muss sein” de Beethoven, aqui a anedota das vinte e quatro perdizes de Stálin -, os elementos narrativos extra-textuais. Na verdade, o presente romance lembra tanto os anteriores que a impressão é de que Milan Kundera não apenas deixou de falar com a imprensa nas últimas décadas como deixou de lê-la também: seus personagens, muito semelhantes a ele mesmo, parecem viver em uma Paris congelada no tempo, ainda atormentada pelos debates ideológicos do final da década de 80 e pelo fantasma da Cortina de Ferro.

Digo isso porque alguns elementos da obra já estão sendo referidos pelos críticos como críticas ao Stalinismo, como se alguém ainda precisasse chutar este cachorro morto em particular, sendo que o romance tematiza a hipocrisia do autoritarismo em geral; mas o autor não parece compreender o quanto o seu texto pode servir de munição para muita argumentação coxinha, em particular num mundo pós-julho de 2013. Antes que essa tentação bata, é preciso lembrar que o que caracteriza um regime autoritário para Kundera é a falta de senso de humor – basta lembrar o enredo genial de A Brincadeira -, o que ainda se faz presente na França contemporânea, de modo que os amigos temem que Calibã seja preso caso se descubra que ele fala francês e só finge falar paquistanês.

Como a Praga dos anos 60 na Paris dos anos 2000, seu romance se estabelece como um jogo de espelhos: entre a tentativa de suicídio/aborto da mãe de Alain e sua obsessão por umbigos; entre o câncer fingido de D’Ardelo e a entrada triunfal na festa da amiga recém-enviuvada, cuja alegria pode ser tão fingida quanto a tristeza dele; entre o paquistanês falso de Calibã e o português verdadeiro da empregada; entre o autoritarismo stalinista, onde tudo tinha significado, e o mundo pós-moderno em que nada significa nada além de uma moda passageira; entre o grupo de amigos, a maioria nascida quando Stálin já estava morto, mas ainda sob sua sombra, e a namorada de vinte anos que não entende a anedota porque não sabe quem era Stálin.

Alain gosta da namorada, mas não consegue decidir se ela realmente não sabe quem é Stálin ou simplesmente não se importa com o que aconteceu no mundo antes de seu próprio nascimento. É uma observação curiosa. Alain e Kundera são de uma geração que nem consegue conceber que alguém não saiba quem é Stálin ou Schopenhauer. (Pensando bem, também acredito que Kundera não tenha acesso à internet.) De alguma forma, eles parecem acreditar que a namorada e as moças de umbigo de fora, por poderem se dar ao luxo dessa ignorância, vivem num mundo mais superficial, mas também mais livre do que o que existia sob a Cortina de Ferro. Pode até ser que A Festa da Insignificância tenha sido concebido como uma crítica às falecidas ditaduras de esquerda. Mas é o ditador risonho, que proíbe O Mundo como Vontade e Representação com o objetivo de provar a tese de Schopenhauer, é quem sai vitorioso.

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Dia do Escritor

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Para ler ouvindo: Dance, Mombojó

Todo mundo sabe quando é o dia do Professor, é uma data que se alardeia e se comemora apesar dos poucos motivos de celebração, e eu nem trabalho neste dia, o que às vezes é gostoso. Mas quando é o dia do escritor?

A primeira coisa que eu ouvi sobre escritores foi que isso não era profissão: que publicar livros é algo que se faz por lazer, talvez por vaidade, enquanto se trabalha numa profissão de verdade, com frequência vagamente relacionada a escrever, como jornalista. Era um clichê tão repetido por professores e representantes da ideologia coxinha em geral que dava até preguiça de responder: em primeiro lugar, porque os professores que repetiam isso pareciam se esquecer de que a profissão deles também não é considerada trabalho de verdade por muita gente; depois, porque ninguém parecia achar estranho que músicos, modelos de beleza e o Arnaldo Jabor vivam dessas atividades, enquanto viver de escrever continuava sendo impensável.

Então vinham os exemplos infelizes, típicos da falta de informação dos nossos professores, que em geral conhecem a vida e obra dos autores sobre os quais deveriam lecionar somente de orelhada: de que Machado de Assis era funcionário público, Mário de Andrade professor de piano, que Álvares de Azevedo morreu ainda cedo e ainda assim estudava Direito. Como se o único curso universitário da época não fosse Direito (além de Medicina), como se a música não fosse elemento essencial na obra de Mário, como se inúmeros cargos públicos decorativos não tivessem sido distribuídos no Império e na Primeira República com o objetivo de que seus ocupantes pudessem continuar cultivando seus dotes literários. (Justiça seja feita, Machado era um dos poucos que exerciam de fato o cargo para o qual tinham sido nomeados.)

No fundo, é o antigo paradoxo brasileiro: de um lado exalta-se a espontaneidade, a improvisação, o músico que não sabe o que é acorde. De outro, esse mesmo sujeito quer carteirinha da Ordem dos Músicos e todos os direitos previstos na CLT. Fala-se da irregularidade, da falta de continuidade da literatura brasileira, mas basta aparecer um livro publicado por alguém que estudou literatura a fundo para descer-se a lenha no pobre autor. Enquanto isso, as redações dos jornais continuam estranhamente abarrotadas de volumes que ninguém vai ler, enquanto o amigo do editor sempre vai ter o livro resenhado, e não se sabe mais por onde começar a ler ou em que informação confiar. Ou seja, quem fala de literatura é tão profissional quanto os próprios escritores, e a confusão está armada.

Em Grande Hotel Budapeste, o Autor do livro comenta sobre como as pessoas acreditam que escritores são pessoas que vivem com a cabeça na Lua, imaginando coisas do nada. Uma das histórias do filme de Wes Anderson é a história de como um enredo chega até um autor: segundo ele, a partir do momento em que as pessoas sabem que ele escreve, dão-lhe espontaneamente suas histórias de presente. Mas essa afirmação me lembrou, estranhamente, de Pedro Almodóvar: segundo ele, seus primeiros roteiros foram baseados em histórias ouvidas no ônibus, em conversas entre mulheres, um privilégio que a fama lhe tirou. (Talvez seus roteiros tenham caído de qualidade bem quando ele passou a ter que criar os enredos.) De qualquer forma, parece que a atividade de escrever é completamente passiva e depende só de elementos que não se podem controlar.

O tempo passou, conheci escritores profissionais que de fato vivem das suas publicações e com frequência me arrependo de não ter seguido a vocação, de ter feito o que mandava o bom senso e estudado Letras e me tornado professora. Eu certamente não ganharia presentes nesse dia 25 de julho. Na verdade, muito provavelmente não ganharia nada: até hoje não consigo imaginar quem pagaria para ler o que escrevo. Mas, ao mesmo tempo, me daria um certo prazer viver contra a corrente da produtividade, como alguém que mais observa do de vive. O fato é que ninguém consegue escrever um livro no metrô entre o trabalho, o mercado e a pós-graduação. Há uma incompatibilidade entre o cotidiano coxinha e o trabalho delicado com as palavras, e o texto só se produz com muito ócio e horas jogadas fora. Talvez seja uma boa ideia: pagar um escritor pelas horas em que ele não faz nada.

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Amigos imaginários

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Para ler ouvindo: Le Flâneur, Jennifer Souza

Eu fui a clássica criança que teve um amigo imaginário. Não me lembro de como ele era, mas a minha mãe certa vez contou que me via conversando com ele e que eu pedia para ela colocar mais um prato na mesa, para ele comer. Em tudo o mais, minha mãe sempre vivia louca da vida porque nenhum capítulo do meu desenvolvimento era parecido com o que ela tinha aprendido na faculdade, mas aparentemente nesta idade eu segui o script previsto e ela via o meu comportamento com mais graça do que preocupação.

O que ela talvez nunca tenha percebido é que, depois da partida desse amigo imaginário (provavelmente para a Mansão Foster), muitos outros vieram me visitar ao longo dos anos. Foi sobre eles que eu escrevi as minhas primeiras histórias, que eles me contavam ou que eu vivia com eles. Eu tinha plena consciência de que eles não existiam; no entanto, minha ligação com eles era mais real do que qualquer outra que eu sentisse na época. Os professores que liam os meus textos (naquela época, se você fosse adolescente e gostasse de escrever, os seus únicos leitores eram os seus professores) achavam que eu tinha uma imaginação muito fértil, mas eles nem chegavam perto do quanto ela era capaz de produzir. Em esforços que só deixavam mais evidente a inutilidade do papel do professor, alguns chegaram a fazer tentativas de que os meus textos me aproximassem dos meus colegas, quando na verdade eu não tinha a menor necessidade disso. Às vezes cedia, mais por pena deles do que por mim. Fui o estereótipo da adolescente estranha, que não consegue ou não deseja ter amigos, e por alguma razão, muito depois de se ter concluído que a homossexualidade, a masturbação ou a afinidade com bandas ruins não são doenças a serem curadas, ainda se acredita que o adolescente solitário é uma alma perdida, que precisa ser salva a qualquer custo.

Em algum momento eu adquiri essa noção de que precisava ter amigos, melhor dizendo, que precisava que os adultos acreditassem que eu tinha amigos, e comecei a falar das pessoas que tinha inventado como se fossem reais. Não deixava de ser divertido contar algumas das histórias, nem que fosse um inocente “o Fulano acha tal coisa desse assunto”, e mesmo recusar convites porque já tinha marcado alguma coisa com alguém na minha cabeça. Esse hábito chegou a ter momentos perigosos, porque a síndrome de Clifford Irving não permite que você se lembre com todos os detalhes do que inventou há dias ou semanas, e eu chegava à sofisticação de misturar pessoas reais com imaginárias, de um jeito que eles ganhavam um colorido de realidade que borrava a linha que separava os dois. O fato de não ter Facebook, por exemplo, sempre facilitou as minhas incoerências, mas volta e meia alguém pergunta de um amigo que não existe e no qual você nunca mais pensou. Como todos os outros, amigos imaginários chegam e vão embora, e têm uma relação íntima com o momento da vida que estamos vivendo. A melhor parte é que eles vêm do mesmo lugar que os seus pensamentos, de forma que você não precisa contar nada. Eles sabem. Amigos imaginários têm vidas próprias, sim, mas nunca deixam de ter tempo para você. Também não arranjam namorados ou namoradas antipáticas nem desaparecem no redemoinho dos relacionamentos. A vida deles está intimamente ligada à sua, e eles são fiéis.

Por isso, é triste contar que eu não retribuí essa fidelidade. Há alguns anos, cheguei à conclusão de que era hora de ter amigos reais de uma vez por todas, e que não fazia muito sentido deixar de fazer coisas com pessoas de verdade por conta de compromissos imaginários. Não sei de onde saiu essa ideia infeliz, mas o fato é que começou a se fazer necessário um esforço na direção de pessoas de verdade, com todas as complicações que todo mundo conhece. Deixar de conversar, sair e até de viajar com amigos imaginários passou a custar um trabalho quase sempre em vão, porque ninguém tem tempo para ninguém hoje em dia e eu acabava fazendo as minhas coisas sozinha do mesmo jeito. Talvez por ter começado muito tarde, a minha paciência para sair caçando companhia para o que eu quero fazer é extremamente curta, o que se agrava pelo ritual interminável que se tornou marcar uma simples cerveja com alguém, essa sequência esgotante de mensagens na tentativa de encontrar uma data em comum ou de respostas vagas em que ninguém diz de uma vez que simplesmente não está com vontade de fazer nada com você.

Seguindo um mau conselho, com o tempo eu cheguei a julgar o caráter das pessoas pelos amigos que ela reúne em torno de si. Até que ponto é possível reconhecer o caráter de uma pessoa pelo número ou a profundidade das amizades que ela tem? A questão é que a amizade é um relacionamento como qualquer outro, e, muito longe daquele conceito de “família que se escolhe”, tão marcado pelo utilitarismo quanto as relações de trabalho, pela dependência quanto os relacionamentos amorosos, de cobranças sem sentido quanto os laços de família. Quanta gente imprestável, dessas que só estragam a vida dos outros, não estão rodeadas de amigos prontos a fazer tudo o que elas querem? O acesso ao mundo virtual, por exemplo, me deixa espantada com a quantidade de amigos que têm as pessoas que são a favor da pena de morte ou de linchamentos públicos. Acabei descobrindo que uma pessoa “escolhe” as suas amizades com a mesma falta de critério vigente para cônjuges e duplas sertanejas, e que não adianta tentar entender como ou por que elas fazem isso, porque faz tanto sentido quanto todo o ser humano. Tanto sentido quanto um amigo imaginário, como o amigo com quem eu vou ao cinema amanhã.