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Velas apagadas

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Para ler ouvindo: Pra manter ou mudar, Móveis Coloniais de Acaju

Sempre há que se comemorar um aniversário, essa data em que as mães tem uma boa desculpa para entupir seus rebentos de açúcar com bolo, brigadeiro e guaraná e fingir que não se importam com a destruição à sua volta.

O momento mais essencial de uma festa de aniversário é, entretanto, depois do parabéns, quando os convidados começam a se precipitar para a saída. Todo mundo já viveu a cena quando criança: aquele momento entre o apogeu da agitação da festa, seus primos e amiguinhos gritando por todos os lados, e a faxina que vai ocupar toda a noite da sua mãe, suas tias e avós. Aquele momento em que você senta solitário, ainda com o cone de papel na cabeça, diante da mesa coberta de pratinhos de papel sujos e brigadeiros amassados e ainda acredita que fazer aniversário é ter uma festa, e poder mostrar um dedinho a mais quando uma tia chata na rua pergunta quantos anos você tem. Paradoxalmente, é o próprio passar dos anos que estraga o seu aniversário, que evolui para a noitada num bar com os seus amigos e depois para aquela noite solitária em que você abre uma cerveja em casa mesmo e se flagra refletindo na janela sobre como o tempo passou tão rápido.

Semana passada publiquei meu centésimo post. 101 é um bom número, é o tempo suficiente para um projeto florescer. Não acreditei que esse blog durasse tanto: o meu blog anterior era para ter durado exatamente um ano, e murchou depois de seis meses. No começo, eu achava que enfim teria um número de leitores do qual pudesse me gabar – mas a (literalmente) meia dúzia de leitores que conquistei, com a sua estatística impressionante de serem igualmente divididos entre metade de cada sexo e o fato de 50% terem doutorado não deixa de ser algo de que me gabar. Às vezes, alguém compartilhava um post no Facebook e eu tinha de repente 200 visualizações, mas o número proporcional de comentários idiotas ou vagos me deixou claro que não valia a pena. Mais tarde, só continuei escrevendo porque sabia que uma determinada pessoa o lia regularmente, e deixava pistas para que ele soubesse que eu ainda pensava nele e imaginar se, por ler o blog, ele ainda pensaria em mim também.

Há tempos não ouvimos falar um do outro. Ele deve ter até se esquecido de ler o blog e de mim também. Mas, tudo o que morre, também deixa outra coisa nascer. É divertido escrever, mas sei que nunca vou me tornar uma escritora. Publicar um livro de papel se tornou um sonho obsoleto, e não há mais necessidade de que se escreva nada, enquanto quem merece ser lido continua acumulando pó nas prateleiras, e a maioria das pessoas dificilmente lê alguma coisa que não tenha sido postada no Facebook. Talvez só a própria internet seja o que impeça a extinção da escrita, enquanto o Youtube não concentrar todo o conteúdo. Vou deixar minha última moeda cair na água e desejar ter nascido em outra época, ou com outra aptidão.

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