Deixe um comentário

Dia do Professor

6250
Para ler ouvindo: Tudo bem, tanto faz, Marcelo Jeneci

Gostaria de saber se todos os profissionais se sentem da mesma maneira, mas trata-se de um assunto em que cada um só pode responder por si mesmo: como o cinema e a literatura representam mal o trabalho alheio. Nem vou mencionar o meu horror a filmes sobre escritores e a encenação de suas personalidades tempestuosas que de repente resolvem se sentar para escrever, como se alguém conseguisse estruturar uma frase com a caneta a meio caminho do papel, olhando para o vazio. Mas os professores, no cinema e na literatura, são um caso à parte: quem decide incluir uma personagem dessas na história vai necessariamente colocar alguém ultramotivado e inspirador, disposto a mudar as vidas de seus alunos, como se um professor não fosse um ser humano com o mesmo direito de estar do saco cheio do trabalho como qualquer outro.

Por isso, aqui vai a minha lista de personagens professores preferidos, todos de filmes (entre os quais não há nenhum brasileiro):

5. Annie Sullivan (Anne Bancroft em O Milagre de Annie Sullivan) Releguei à última colocação a professora de Helen Keller porque, apesar de se tratar de uma história real e de um clássico da pedagogia (Helen Keller se tornou ela própria professora e escreveu livros sobre aprendizagem), Anne Sullivan é uma dessas personagens que fazem pensar que ninguém vai ser uma professora decente a não ser que consiga ensinar uma menina surda, muda e cega a escrever, assim como Anne Bancroft é uma dessas atrizes que fazem pensar que ninguém consegue atuar, a não ser que consiga representar Annie Sullivan. Também é perniciosa essa noção do magistério como sacrifício e missão pessoal e não simplesmente um trabalho, a que eu me oponho frontalmente. Não estou nessa profissão para salvar a alma de ninguém.

4. Rainer Wenger (Jürgen Vogel em A Onda): Já mencionei minha vontade de fazer Psicologia Experimental e de usar os meus alunos como cobaias sem que eles saibam. O professor que resolveu instalar um regime totalitarista com o movimento “A Onda” não apenas realizou a minha fantasia, como fez desse (ou de sua versão original, americana, de 1981) um filme obrigatório para estudantes do Ensino Médio. Não me refiro ao alerta sobre a facilidade com que o fascismo se instala em nossas vidas, mas pela noção de que os adultos, e em particular os professores, não fazem a menor ideia do que estão fazendo.

3. Karen Pomeroy (Drew Barrymore em Donnie Darko): Ainda que em um papel secundário, Drew Barrymore arrasa no papel de uma professora de inglês oprimida pelo sistema conservador da classe média americana, enquanto tenta, com a cumplicidade dos alunos, trazer um pouco de luz a eles. Mesmo que isso se deva ao contraste gritante com a abominável Kitty Farmer, o desempenho de Drew é delicioso, e toda a essência da vocação da personagem está na cena em que, pouco depois de ser demitida, está no backstage do show de talentos durante a apresentação de Cherita: ela parece ser a única a enxergar a pureza e a autenticidade na coreografia da gordinha latina, e realmente se entristece por ela, ao passo que se irrita com os passos sexualizados do grupo de meninas de dez anos que se seguem. Vale ainda uma menção honrosa a Noah Wyle como o professor de Ciências, que além de ser namorado de Karen também é o único que se dispõe a responder às perguntas de Darko.

2. Raymond Dufayel (Serge Merlin em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain): Para ninguém pensar que “professor” é um sujeito de pé na frente de uma lousa. Lecionar é uma questão de postura, e nesse item o Homem de Vidro, que não desiste de transmitir um pouco de cultura e também a boa pronúncia da língua francesa para o pobre Lucien, é um excelente exemplo.

1. Professor Jules Hilbert (Dustin Hoffmann em Stranger than Fiction): ”Que tipo de pessoa, entre a vida e panquecas, escolheria panquecas?“ “Isso depende da qualidade da vida de que estamos falando e, claro, da qualidade das panquecas.” Se alguém capaz de dizer isso não for um professor, não sei quem seria. Disposto a ajudar Harold Crick apenas com as ferramentas de análise literária de que dispõe, o personagem de Dustin Hoffmann nunca interrompe as suas próprias atividades enquanto trata do “caso” dele, e é em pequenos detalhes da rotina de professor que a sua atuação se revela cuidadosa e saborosa: as quantidades de café que ele ingere (muita gente acha uma incoerência que na mesma sequência ele se sirva do café da máquina e em seguida mais do bule em seu escritório, mas essa cena só pode ser compreendida por cafeólatras), os livros espalhados, cheios de papeizinhos que marcam trechos importantes, os trabalhos de alunos por corrigir, a correria entre uma aula e outra, o posto de salva-vidas voluntário. Foi a única atuação, até hoje, que me fez sentir lisonjeada por ser professora, em um filme que também tem como marca a compreensão exata do trabalho do escritor.

P.S.: Dados do SISU no início deste ano apontaram uma queda de 16% na procura por cursos de licenciatura no país. Espero que se repitam no vestibular desde ano, até aproximarem-se de zero. Até o dia em que o governo anunciar um programa chamado “Mais Professores” e se comprometer a pagar no mínimo 20 mil reais para quem for lecionar nas periferias deste país.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: