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O que é o futuro?

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Para ler ouvindo: Mais um, Fábrica

O que é o futuro? Por puro acaso, reassisti recentemente um filme que me fascinara há muitos anos: Corra Lola, responsável pelo renascimento do cinema alemão no final dos anos 90. Em meio a uma Alemanha que tentava a custo remendar o mapa de sua capital e com ela a própria identidade, uma produção independente chutava as especulações filosóficas, os complexos freudianos e o debate político em nome do frenesi do presente e da diversão. Com a trilha sonora de tecno no fundo, Lola, que não trabalha, precisa socorrer o namorado, que tenta ganhar algum traficando drogas, da dívida com um traficante pica-grossa: o problema e a solução imediatos e o ritmo frenético da narrativa davam uma banana para os problemas familiares e o passado do nazismo e da Alemanha dividida.

Será mesmo? O que me fascinava na época do lançamento do filme, cujas gravações nas ruas de Berlim com as suas obras pela metade atrapalharam o trânsito e a nossa vida durante algumas semanas, era justamente a onipresença daquele contexto de transição, em que ninguém sabia no que os alemães ou Berlim poderiam se tornar. (Pessoalmente, sinto mais orgulho de ter vivido na Berlim que ainda seria do que de ter visitado a Berlim que se tornou.) As ruas em obras, os desvios inesperados em função das reformas e os canos cor-de-rosa que mantinham provisoriamente o fornecimento de água e gás até tudo ficar pronto, todos esses elementos criam o trajeto de Lola pelo labirinto da cidade. O próprio contexto da incerteza econômica e a música tecno, escolhida pela geração X pela ausência de letras que ultrapassava as barreiras de comunicação entre as Alemanhas ocidental e oriental, pontuam o filme de forma contundente.

Ainda hoje, a estrutura narrativa de Lola me deixa menos intrigada do que as tramas paralelas que são apresentadas com a agilidade de um post no Twitter ou no Instagram: em rápidos flashes, sabemos do futuro de cada uma das pessoas em que Lola tromba no caminho, e eles variam todas as vezes em que a história se repete. De forma anedótica, eles parecem ilustrar a postulação da física quântica de que cada decisão tomada abre um universo paralelo em que a decisão contrária encadeia uma outra série de acontecimentos. As possibilidades não são infinitas, uma vez que cada um dos figurantes já está ligado a um contexto – como a mãe que empurra um carrinho – e de certa forma ao encontro com Lola, de acordo com as leis da Improbabilidade Infinita. Mas são muitas, e a possibilidade de que elas coexistam em algum lugar do espaço é mais fascinante do que as possibilidades em si mesmas.

Da mesma forma que a Berlim de hoje, com seus hipsters ocupando os apartamentos que há quinze anos ninguém queria habitar, me interessa menos, de modo geral me interesso menos pelo resultado do que pelo processo. E, ainda que eu tenha lido há algum tempo que tudo o que vivemos é apenas o prólogo de algo muito melhor, me entristece um pouco ser um prólogo de mim mesma. Tenho saudade de quando eu ainda não conhecia certa música, ou não tinha lido certo livro, de quando vi certa pessoa pela primeira vez: tenho saudade desse momento antes de que uma Lola em desespero trombou em mim e desencadeou o curso dos acontecimentos. Às vezes gostaria de esquecer a história do livro, ou de desaprender uma língua, ou de nunca ter sofrido a decepção que aquela pessoa me causou, só para poder passar pelo processo de descoberta novamente: o caminho sempre é mais interessante do que a resposta, mas o trajeto tem seus momentos morosos até que novos elementos entrem no caminho.

É uma ideia batida que o futuro não existe. É um erro pensar no futuro em termos de anos ou décadas que se desenrolam em eventos que não podemos controlar. Na verdade o futuro é um desdobramento constante do presente, e nesse minuto sabemos exatamente tudo o que está prestes a acontecer, só talvez não valha a pena ficar pensando nisso, sob o risco de se tornar a velhinha excêntrica que abre a cada minuto a caixa de correio,

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