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Contos da era pré-celular

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Para ler ouvindo: Samba do Blackberry, Tono

Como se calcula a passagem do tempo? Algumas coisas que você leu ou viu há muitos anos parecem encapsuladas numa época, e é tão engraçado quando triste perceber que revê-las não faz sentido algum. Como um papel muito antigo, cujo conteúdo podemos reviver se o tirarmos da caixa que o protege, mas que também pode se esfarelar no contato com o ar. (Na era da digitalização essa imagem não faz o menor sentido.)

Se fossem refilmados nos dias de hoje, quase todos os episódios de Seinfeld precisariam de um prelúdio em Jerry, George, Kramer e Elaine teriam que explicar que o seu celular quebrou, está fora de área, acabou a bateria ou foi esquecido em casa. A graça atemporal da grande maioria das situações às vezes se acrescenta à graça de que muitos dos apuros que os personagens passam se devem a inexistência do celular, e isso numa série que não foi feita há tanto tempo assim – 25 anos é quase nada. Revejo o episódio em que eles esperam pela vez para jantar, um dos famosos episódios-garrafa em que se sustenta o diálogo ininterrupto durante 25 minutos em um espaço confinado, no caso a ante-sala do restaurante. Enquanto Elaine reclama de fome e Jerry tenta administrar a impaciência dos amigos, George está desesperado para falar com a atual peguete, porque sem dizer a ela onde eles estão o desencontro é inevitável.

Ao mesmo tempo em que parecia mais difícil entrar em contato com as pessoas, parece que também era mais complicado se livrar delas. Jerry tem um amigo de infância, que na verdade é um vizinho que ele só visitava por ter uma mesa de pingue-pongue (“Eu tinha dez anos, caramba!”) e que insiste em ligar para ele e marcar encontros até a idade adulta, mesmo não tendo nada em comum – e ainda por cima sendo aquele tipo de pessoa que fala sozinha e maltrata garçonetes. Hoje em dia, se algum indesejado liga para você, o identificador de chamadas do celular já avisa e você ignora a ligação – e o mesmo se faz com as mensagens, os e-mails e até o inbox do Facebook até que a pessoa simplesmente se toque e desista de falar com você.

No entanto, Seinfeld faz piadas que se aplicam a nós de um jeito que me faz pensar que as nossas relações são apenas uma versão amplificada, acelerada do que eles já eram. Em particular nos episódios em que a sua família ou a família do George aparecem, essa versão tão não-WASP de família (lembrando que Jerry é judeu e Constanza italiano, o que torna as sequências particularmente divertidas para o público brasileiro) com acúmulo de parentes de várias gerações e diferentes graus de parentesco, todos falando ao mesmo tempo sem se dar conta se estão concordando ou discordando uns dos outros ou mesmo se estão falando do mesmo assunto – exatamente como na internet.

Um dia ele comenta sobre a onipresença dos telefones: em casa, no carro, no escritório, orelhões na rua que permitem verificar a sua mensagem armazenada em algum lugar a qualquer hora. “Por que você não permite que as pessoas sintam a sua falta?” Certamente por medo de não fazer falta nenhuma: estou no ônibus, e durante um trajeto de quarenta minutos vejo uma mulher falar ininterruptamente ao celular, com três pessoas diferentes, se despedindo de uma e ligando em seguida para a próxima, como um fumante que acende um cigarro no outro. Ao rever as nove temporadas de Seinfeld durante as férias, percebi que nenhum deles nunca está sozinho. No lugar do George, eu responderia: Prefiro que ninguém perceba que não sente a minha falta.

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