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A verdadeira moral da história

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Para ler ouvindo: Queima o sol, Transmissor

Entre as grandes heranças da literatura, como o fato de ninguém nunca ter de fato lido o Drácula de Bram Stoker antes de adaptá-lo ao cinema e de que as novas tecnologias não tenham incentivado nenhum diretor de cinema a transpor as histórias de Júlio Verne, uma das que mais me dá pena é o triste destino dado aos contos de fadas. Os contos que eu cresci ouvindo da minha avó de ascendência alemã eram interessantes, engraçados e tinham uma relação direta com coisas que eu percebia na minha vida. Talvez seja esse o cúmulo da esquisitice: não ter me tornado nerd vendo séries, Star Wars ou lendo quadrinhos, nem mesmo romances de ficção científica, e sim ouvindo contos de fadas nas versões da minha avó.

Um das razões do meu deslocamento, do meu eterno sentimento de inadequação foi ter nascido junto com uma geração que não ouviu mais contos de fadas dos seus pais, mas sim dos filmes da Disney. Parando para analisar, chega a ser irônico que a geração que rotulou os contos de fadas de machistas e conservadores foi a mesma que deturpou as narrativas e as transformou em machistas e conservadoras… Pelo menos nas versões da minha avó, eles eram profundamente libertários e fizeram parte do que me definiu como alguém que queria viver de forma independente e um dia tomar as minhas próprias decisões.

Em primeiro lugar, nem todos os contos de fada tem a ver com a busca da princesa por um príncipe. Normalmente a princesa está atrás de outra coisa, o príncipe é um bônus, quase um efeito colateral (não raramente no sentido negativo, como todas nós já percebemos). A maioria dos contos que sobreviveu tem mulheres como protagonistas, talvez porque a partir de certo momento as mulheres passaram a dominar esse tipo de narrativa e transmiti-las por linhagem feminina, mas as histórias protagonizadas por rapazes são igualmente interessantes e instrutivas: João Sortudo (é como “Hans im Glück” foi traduzido para o português), que mantém o otimismo apesar do mundo estar caindo na sua cabeça, ou o pescador que poupa um peixinho que realiza todos os seus desejos (e a gente sempre não pede a pior coisa possível?). Mas não custa lembrar que a proto-versão da maioria destas histórias, Cinderela inclusive, é Vasalisa, a Sabida, que sai em busca do fogo primal para aquecer sua família e que tem como prêmio extra livrar-se da opressão da mãe/madrasta (depende da versão).

Mencionei “Cinderela”, que ainda conheci como “Gata Borralheira” (minha avó tinha traduções dos contos em português, mas tão antigas quanto ela, tanto que pra mim só existia a “Capinha Vermelha”). A menina em questão, mesmo se você prestar atenção direito na versão da Disney, só quer colocar um vestido bonito e ir ao baile. É o baile de aniversário do príncipe, e ele é o que menos importa, tanto que nem as irmãs invejosas dão muita atenção para ele durante a festa, mais interessadas em saber quem é a moça desconhecida com quem ele dança. Mas, diante da possibilidade de se casar com ele só por calçar o sapatinho, numa atrocidade da qual nenhuma coleguinha de escola queria ouvir falar mas que a hoje a internet popularizou, a irmã mais velha corta o dedão do pé fora. Na história, ela é desmascarada pelos passarinhos amigos da Cinderela (os mesmos que roubaram o vestido de algum varal, pois não há fada-madrinha), que gritam no pórtico da cidade: “Sangue no sapato”, frase até hoje utilizada pela imprensa alemã quando acontece algum escândalo.

A melhor parte era, claro, a interpretação da minha avó. Ainda que hoje em dia exista de fato uma cirurgia de remoção do mindinho do pé para que ele não “fique feio” com as sandálias altas usadas no tapete vermelho, ela considerava isso uma referência a qualquer cirurgia plástica – e qualquer modificação que uma mulher faça em si mesma por causa de algum príncipe. Aliás, o príncipe também é um intruso na vida da Bela Adormecida, conto em que ninguém percebe a incoerência de que a maldição do sono de 100 anos não faz referência alguma a um príncipe: o que acontece é que o príncipe em questão está ali, por acaso, quando a maldição acaba. Em uma versão ilustrada, os cadáveres dos cavaleiros que tinham tentado entrar no castelo antes da hora aparecem pendurados nas árvores do caminho: uma imagem interessante para uma mulher pensar nos seus ex-namorados.

Entre todas as correções que circulam hodiernamente pela internet, uma continua faltando. No conto da princesa e do sapo, o trato para que o sapo recupere a bola da princesa é que ele jante com ela. Ela ignora sua promessa, mas o rei a força a comer do mesmo prato que o sapo, para que ela aprenda a cumprir suas obrigações morais como princesa. O sapo vai forçando a amizade, e o rei sempre obriga a princesa a satisfazê-lo, até que ele insiste em dormir na mesma cama que a princesa – quando esta, já farta, o atira contra a parede. Esse é o choque que desfaz o encanto que o transformara em sapo – e só há muito pouco tempo que finalmente entendi a gravidade da deturpação de um texto literário. Nem a minha avó nunca explicou direito o significado deste final. E passamos gerações beijando sapos, enquanto deveríamos atirá-los contra a parede.

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