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Espelho negro

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Para ler ouvindo: A Herança, a Mulher e o Dedo, The Pexes

“Você gosta de assistir séries?” se tornou uma das perguntas mais sem graça a se responder ultimamente. Ainda me lembro de uma época em que as séries live-action (com exceção de Chaves) ocupavam um lugar intermediário entre o cinema e a novela das oito: não nos envergonhávamos de assistir àquilo, mas também não nos orgulhávamos, e raramente se falava disso. Muitos anos se passaram antes que eu soubesse que outras famílias assistiam e o que eles achavam de Anos Incríveis, por exemplo.

Talvez esse seja o problema: os assuntos sobre os quais podíamos falar se tornaram tão vazios, ao passo que a pilha das coisas de que não podemos falar ou cuja opinião já está pronta em algum meme do Facebook – se acreditamos em reencarnação, o que achamos das manifestações do ano passado, se alguém já ouviu falar daquela banda independente – que de repente alguma coisa que só servia naquela horinha que a gente tinha que encher antes de dormir se tornou assunto de conversação. Ou talvez seja aí que se encontra a lacuna: essa horinha antes de dormir já foi preenchida pela leitura (será que eu sou a última pessoa do mundo que lê antes de dormir?), assim como o tipo de leitura já serviu de tema de conversa e mesmo de distinção (no bom sentido) entre as pessoas. E, como todas as séries de televisão são mais ou menos parecidas, o subtexto na verdade é a distinção entre aqueles que podem pagar uma assinatura de TV por assinatura ou Netflix, e os que não podem.

(A expressão no rosto das pessoas quando ouvem que eu não tenho televisão, ainda mais estarrecida do que quando digo que não tenho Facebook, é realmente algo que desejo nunca perder.)

Por motivos que já expressei por escrito, não me considero uma “nerd”, se é que essa denominação ainda vale para quem assiste certas séries. E, com exemplos que também já enumerei, as minhas séries preferidas não dão audiência, são canceladas na primeira ou na segunda temporada e ninguém nunca ouviu falar delas. Mas, se é o caso de mencionar uma série que oficialmente ainda existe mas que vive um eterno hiato, digo que assisto Black Mirror. Além de um apreço maior pelas séries da televisão britânica, esta consegue ser ainda mais off-mainstream em suas duas temporadas de três (03) episódios cada, cada um valendo mais do que temporadas inteiras de outras coisas por aí.

Trata-se de uma série do tipo Além da Imaginação, que não possui um arco de história, mas apenas um tema, que é tratado com um enredo diferente em cada episódio (chamam de “série de contos”, que se oporia às tradicionais, que seriam “série de romance”). O piloto já é uma paulada: o Primeiro-Ministro britânico é chantageado para copular com uma porca em rede nacional de televisão. O episódio, portanto, gira em torno de um ato obsceno que não é mostrado, afinal o que importa é o seu impacto nas pessoas ao redor, incluindo o próprio ministro, e a coletividade, que não é mais composta de eleitores ou cidadãos, mas sim de espectadores que estão mais para consumidores de imagens, totalmente submissos à próxima comoção.

Dispostos num futuro nem utópico nem distópico e não muito distante, os demais episódios – cujo impacto crítico e emocional chega sequer perto do primeiro – são centrados, cada um, no consumo de um tipo de tecnologia pela qual os personagens se deixam dominar, permitindo que a mídia os defina como pessoas. As mídias utilizadas pelos personagens são fictícias, mas são ideias interessantes, como o software que permite à viúva recente conversar com o falecido marido, e que encontram análogos fáceis no cotidiano que já vivemos. De um lado, dá vontade de que algum futuro Steve Jobbs se inspire na série para construi-las no mundo real, como o primeiro fez com os aparatos de Star Trek. Mas, de outro lado, Espelho Negro é a imagem em negativo da série de ficção científica de antigamente: enquanto Jornada nas Estrelas era pontuada pela confiança em um futuro igualitário em que a tecnologia servia de apoio, em Espelho Negro a tecnologia nos submete e afasta.

Paradoxalmente, como toda narrativa interessante, a crítica a esse domínio da mídia sobre nossas vidas chega através de uma das mídias narrativas mais em voga nos últimos anos. Toda televisão, computador, tablet desligado é um “Espelho negro”. Mas é ainda mais perigoso o que eles refletem de nós quando estão funcionando. E que indivíduos realmente acreditem que o que elas assistem na televisão as defina e distinga de outras pessoas é um pensamento assustador.

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