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Amor nos tempos de cólera

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Para ler ouvindo: Aimer, Jeanne Moreau

Sexo e política se misturam? Acredito que sim. Como diz o personagem de Kevin Spacey em House of Cards – à parte a sua visão bastante simplória e às vezes até infantil do jogo político -, tudo é sobre sexo, menos o sexo, pois o sexo é sobre poder. Se a divinidade do chocolate pode se juntar com a neutralidade do creme de leite e se transformar nessa entidade incrível que é a ganache, porque sexo e política não podem se amalgamar numa forma parecida? Mas, da mesma forma que a ganache malfeita, a mistura pode azedar, e muito – e não restar outra alternativa além de jogar tudo fora e começar de novo.

Normalmente é chato estar solteira, principalmente porque todos os homens pressupõem que você está à procura de um namorado (ah, e eles também pressupõem que você é heterossexual), mas é particularmente complicado querer encontrar uma cara-metade em época de eleições. Do mesmo jeito que todo mundo é especialista em futebol quando chega a Copa, debatendo meios-de-campo e esquemas táticos, quando se aproximam as eleições majoritárias os interlocutores mais insuspeitos tornam-se especialistas em política econômica, segurança pública e sabe-se lá mais o quê que se acredita ser responsabilidade do governo federal (uma época comecei uma coleção de frases que começassem com “o governo devia fazer alguma coisa…”, mas desisti na que prosseguia “para impedir que meninas engravidem de jogadores de futebol”).

Se as conversas normais já ficam difíceis a cada quatro anos, imagine-se o que acontece numa conversa que pode despertar um interesse amoroso. Porque um diálogo durante um flerte é, ao mesmo tempo, extremamente irrelevante e em que tudo é relevante: pelo bom senso, não se discutem assuntos sérios com alguém que se acabou de conhecer (tudo bem, um sujeito certa vez quis discutir aborto comigo), porém tudo o que se diz é muito significativo e fornece pistas importantes sobre a pessoa com quem se está lidando (ainda que a maioria delas, como num bom romance policial, só faça sentido a posteriori). Então coloque-se essa conversa num contexto em que questões políticas se converteram temporariamente em assunto de bar, e abriu-se o Febeapá do Baixo Augusta. Numa conversa de bar normal, esse assunto já é cansativo e costumo evitá-lo – mas é mais difícil ficar calada quando não há mais interlocutores, e a pessoa que te obriga a conversar com ela, além de ser o único outro ocupante na mesa, tem a atitude de quem considera mulheres meros recipientes de suas ideias fantásticas e não indivíduos com opiniões ou memórias próprias, isso em pleno século XXI, e diante de uma disputa em que um terço dos candidatos à presidência (duas das quais com as maiores chances de chegar ao segundo turno, o que Tancredo Neves deve estar pensando agora?) é mulher.

Não deixa de ser admirável como alguns homens parecem apaixonados pelas próprias opiniões, a julgar pela forma com que a argumentação atropela o bom senso e qualquer objeção contrária que apareça. Infelizmente, preciso me fazer clara me abstendo de exemplos para não parecer sectária, já que a argumentação capenga e o monólogo pseudopolítico (ah sim, porque se é monólogo, não tem como ser político) se encontra em todos os dois, ou três, pratos da balança. Gostaria de ser uma mosquinha para saber se os mesmos indivíduos são tão irredutíveis quando seus interlocutores são outros homens. Mas basta que eu me envolva na conversa – num exemplo surpreendente de como funciona a natureza humana -, e a cena muda de figura: meu interlocutor se irrita, abrevia o assunto e com frequência muda de tema, não raramente com um tom de voz grosseiro e definitivo, do tipo “não quero mais falar disso”. Justiça seja feita, não observo essa reação apenas quando a discussão é política; mas com mais frequência quando o assunto é esse, e a irritação também é maior.

Pois mais que debates políticos com desconhecidos me aborreçam – eu gosto muito do tema, mas infelizmente a banalidade da maioria das opiniões me deixa meio entediada -, eles não deixam de ser essenciais: considero impossível desenvolver um relacionamento com alguém sem saber em que partido ele ou ela vota; trata-se de uma questão de visão de mundo, que se reflete em várias questões cotidianas que acabam reverberando na relação, desde a escolha de um filme para assistir até a educação dos filhos. Por isso, não consigo entender por que, desde os tempos de faculdade, vejo rapazes tão engajados politicamente de mãos dadas com meninas que parecem frequentar muito mais shoppings do que comícios, muito mais “baladinhas” do que botecos pé-sujo, e que observam meio alheias os seus discursos exaltados como se não fizessem a menor ideia do que eles estão dizendo. E continua sendo um mistério como um indivíduo coloca a atividade política no centro da própria existência, mas não considera relevante que a sua consorte acompanhe ou compreenda o que ele está fazendo. Claro que esposas de engenheiros não precisam dominar conceitos de física, nem namoradas de advogados tem que saber a diferença entre homicídio doloso e culposo; mas atravessa os anos a imagem do sujeito barbudo, bradando contra o capitalismo, de braço enganchado com a menina que arruma distraidamente a blusa comprada na Oscar Freire enquanto ele fala.

Naturalmente há mulheres para quem a orientação política de seu consorte é irrelevante, ou relevante apenas para que elas mesmas decidam em quem votar. Nada contra. De minha parte, eu insisto em decidir sozinha com quem eu vou me decepcionar da próxima vez – sejam namorados ou ocupantes de cargos majoritários. E, claro, prefiro esperar o resultado do pleito amornar antes de pensar em sair para paquerar mais uma vez.

P.S.: Falando em sexo – a metade infinitamente mais interessante dessa conversa -, “Violette”, de Martin Provost, continua por obra de milagre em cartaz na cidade. É um filme sem figurantes. E sem iluminação. Seus personagens circulam por ruas estreitas e vazias de Paris, retratada fora dos espaços abertos e públicos que lhe são emblemáticos, sempre sufocada, nublada e noturna como a própria psique da personagem, que só se encontra com a luz do sol no plano final. Violette Leduc, em seus sapatos formando um ângulo errado com a canela, as saias mal cortadas e o chapéu alto demais, forma um contraste chocante com a figura longilínea e impecável de Simone de Beauvoir, e também com a sua maneira coesa e inabalável de ver o mundo e a própria obra: pobre, apaixonada, carente e grudenta, ela escreve mais para manter a atenção da amiga por quem se apaixona do que por ambição literária, no entanto se ressente de qualquer desatenção que as pessoas tenham com seus livros; ainda assim (e lembrando outra grande mulher da literatura, Orides Fontela) não suporta ser ajudada. Talvez sem querer, a narrativa expõe uma contradição da sociedade que finalmente, ou não, aceitou a igualdade de direitos entre os gêneros: é muito mais fácil defender o feminismo diante do discurso ponderado de uma Beauvoir do que do choro e dos gritos de uma Leduc. Para ilustrar minha tese, um homem sentado atrás de mim no cinema, terminado o filme, reclamou que o filme fazia “propaganda barata” da emancipação feminina – como se isso fosse alguma coisa ruim.

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