Deixe um comentário

Velas apagadas

1354 ok

Para ler ouvindo: Pra manter ou mudar, Móveis Coloniais de Acaju

Sempre há que se comemorar um aniversário, essa data em que as mães tem uma boa desculpa para entupir seus rebentos de açúcar com bolo, brigadeiro e guaraná e fingir que não se importam com a destruição à sua volta.

O momento mais essencial de uma festa de aniversário é, entretanto, depois do parabéns, quando os convidados começam a se precipitar para a saída. Todo mundo já viveu a cena quando criança: aquele momento entre o apogeu da agitação da festa, seus primos e amiguinhos gritando por todos os lados, e a faxina que vai ocupar toda a noite da sua mãe, suas tias e avós. Aquele momento em que você senta solitário, ainda com o cone de papel na cabeça, diante da mesa coberta de pratinhos de papel sujos e brigadeiros amassados e ainda acredita que fazer aniversário é ter uma festa, e poder mostrar um dedinho a mais quando uma tia chata na rua pergunta quantos anos você tem. Paradoxalmente, é o próprio passar dos anos que estraga o seu aniversário, que evolui para a noitada num bar com os seus amigos e depois para aquela noite solitária em que você abre uma cerveja em casa mesmo e se flagra refletindo na janela sobre como o tempo passou tão rápido.

Semana passada publiquei meu centésimo post. 101 é um bom número, é o tempo suficiente para um projeto florescer. Não acreditei que esse blog durasse tanto: o meu blog anterior era para ter durado exatamente um ano, e murchou depois de seis meses. No começo, eu achava que enfim teria um número de leitores do qual pudesse me gabar – mas a (literalmente) meia dúzia de leitores que conquistei, com a sua estatística impressionante de serem igualmente divididos entre metade de cada sexo e o fato de 50% terem doutorado não deixa de ser algo de que me gabar. Às vezes, alguém compartilhava um post no Facebook e eu tinha de repente 200 visualizações, mas o número proporcional de comentários idiotas ou vagos me deixou claro que não valia a pena. Mais tarde, só continuei escrevendo porque sabia que uma determinada pessoa o lia regularmente, e deixava pistas para que ele soubesse que eu ainda pensava nele e imaginar se, por ler o blog, ele ainda pensaria em mim também.

Há tempos não ouvimos falar um do outro. Ele deve ter até se esquecido de ler o blog e de mim também. Mas, tudo o que morre, também deixa outra coisa nascer. É divertido escrever, mas sei que nunca vou me tornar uma escritora. Publicar um livro de papel se tornou um sonho obsoleto, e não há mais necessidade de que se escreva nada, enquanto quem merece ser lido continua acumulando pó nas prateleiras, e a maioria das pessoas dificilmente lê alguma coisa que não tenha sido postada no Facebook. Talvez só a própria internet seja o que impeça a extinção da escrita, enquanto o Youtube não concentrar todo o conteúdo. Vou deixar minha última moeda cair na água e desejar ter nascido em outra época, ou com outra aptidão.

Deixe um comentário

Dia do Professor

6250
Para ler ouvindo: Tudo bem, tanto faz, Marcelo Jeneci

Gostaria de saber se todos os profissionais se sentem da mesma maneira, mas trata-se de um assunto em que cada um só pode responder por si mesmo: como o cinema e a literatura representam mal o trabalho alheio. Nem vou mencionar o meu horror a filmes sobre escritores e a encenação de suas personalidades tempestuosas que de repente resolvem se sentar para escrever, como se alguém conseguisse estruturar uma frase com a caneta a meio caminho do papel, olhando para o vazio. Mas os professores, no cinema e na literatura, são um caso à parte: quem decide incluir uma personagem dessas na história vai necessariamente colocar alguém ultramotivado e inspirador, disposto a mudar as vidas de seus alunos, como se um professor não fosse um ser humano com o mesmo direito de estar do saco cheio do trabalho como qualquer outro.

Por isso, aqui vai a minha lista de personagens professores preferidos, todos de filmes (entre os quais não há nenhum brasileiro):

5. Annie Sullivan (Anne Bancroft em O Milagre de Annie Sullivan) Releguei à última colocação a professora de Helen Keller porque, apesar de se tratar de uma história real e de um clássico da pedagogia (Helen Keller se tornou ela própria professora e escreveu livros sobre aprendizagem), Anne Sullivan é uma dessas personagens que fazem pensar que ninguém vai ser uma professora decente a não ser que consiga ensinar uma menina surda, muda e cega a escrever, assim como Anne Bancroft é uma dessas atrizes que fazem pensar que ninguém consegue atuar, a não ser que consiga representar Annie Sullivan. Também é perniciosa essa noção do magistério como sacrifício e missão pessoal e não simplesmente um trabalho, a que eu me oponho frontalmente. Não estou nessa profissão para salvar a alma de ninguém.

4. Rainer Wenger (Jürgen Vogel em A Onda): Já mencionei minha vontade de fazer Psicologia Experimental e de usar os meus alunos como cobaias sem que eles saibam. O professor que resolveu instalar um regime totalitarista com o movimento “A Onda” não apenas realizou a minha fantasia, como fez desse (ou de sua versão original, americana, de 1981) um filme obrigatório para estudantes do Ensino Médio. Não me refiro ao alerta sobre a facilidade com que o fascismo se instala em nossas vidas, mas pela noção de que os adultos, e em particular os professores, não fazem a menor ideia do que estão fazendo.

3. Karen Pomeroy (Drew Barrymore em Donnie Darko): Ainda que em um papel secundário, Drew Barrymore arrasa no papel de uma professora de inglês oprimida pelo sistema conservador da classe média americana, enquanto tenta, com a cumplicidade dos alunos, trazer um pouco de luz a eles. Mesmo que isso se deva ao contraste gritante com a abominável Kitty Farmer, o desempenho de Drew é delicioso, e toda a essência da vocação da personagem está na cena em que, pouco depois de ser demitida, está no backstage do show de talentos durante a apresentação de Cherita: ela parece ser a única a enxergar a pureza e a autenticidade na coreografia da gordinha latina, e realmente se entristece por ela, ao passo que se irrita com os passos sexualizados do grupo de meninas de dez anos que se seguem. Vale ainda uma menção honrosa a Noah Wyle como o professor de Ciências, que além de ser namorado de Karen também é o único que se dispõe a responder às perguntas de Darko.

2. Raymond Dufayel (Serge Merlin em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain): Para ninguém pensar que “professor” é um sujeito de pé na frente de uma lousa. Lecionar é uma questão de postura, e nesse item o Homem de Vidro, que não desiste de transmitir um pouco de cultura e também a boa pronúncia da língua francesa para o pobre Lucien, é um excelente exemplo.

1. Professor Jules Hilbert (Dustin Hoffmann em Stranger than Fiction): ”Que tipo de pessoa, entre a vida e panquecas, escolheria panquecas?“ “Isso depende da qualidade da vida de que estamos falando e, claro, da qualidade das panquecas.” Se alguém capaz de dizer isso não for um professor, não sei quem seria. Disposto a ajudar Harold Crick apenas com as ferramentas de análise literária de que dispõe, o personagem de Dustin Hoffmann nunca interrompe as suas próprias atividades enquanto trata do “caso” dele, e é em pequenos detalhes da rotina de professor que a sua atuação se revela cuidadosa e saborosa: as quantidades de café que ele ingere (muita gente acha uma incoerência que na mesma sequência ele se sirva do café da máquina e em seguida mais do bule em seu escritório, mas essa cena só pode ser compreendida por cafeólatras), os livros espalhados, cheios de papeizinhos que marcam trechos importantes, os trabalhos de alunos por corrigir, a correria entre uma aula e outra, o posto de salva-vidas voluntário. Foi a única atuação, até hoje, que me fez sentir lisonjeada por ser professora, em um filme que também tem como marca a compreensão exata do trabalho do escritor.

P.S.: Dados do SISU no início deste ano apontaram uma queda de 16% na procura por cursos de licenciatura no país. Espero que se repitam no vestibular desde ano, até aproximarem-se de zero. Até o dia em que o governo anunciar um programa chamado “Mais Professores” e se comprometer a pagar no mínimo 20 mil reais para quem for lecionar nas periferias deste país.

Deixe um comentário

O que é o futuro?

7417
Para ler ouvindo: Mais um, Fábrica

O que é o futuro? Por puro acaso, reassisti recentemente um filme que me fascinara há muitos anos: Corra Lola, responsável pelo renascimento do cinema alemão no final dos anos 90. Em meio a uma Alemanha que tentava a custo remendar o mapa de sua capital e com ela a própria identidade, uma produção independente chutava as especulações filosóficas, os complexos freudianos e o debate político em nome do frenesi do presente e da diversão. Com a trilha sonora de tecno no fundo, Lola, que não trabalha, precisa socorrer o namorado, que tenta ganhar algum traficando drogas, da dívida com um traficante pica-grossa: o problema e a solução imediatos e o ritmo frenético da narrativa davam uma banana para os problemas familiares e o passado do nazismo e da Alemanha dividida.

Será mesmo? O que me fascinava na época do lançamento do filme, cujas gravações nas ruas de Berlim com as suas obras pela metade atrapalharam o trânsito e a nossa vida durante algumas semanas, era justamente a onipresença daquele contexto de transição, em que ninguém sabia no que os alemães ou Berlim poderiam se tornar. (Pessoalmente, sinto mais orgulho de ter vivido na Berlim que ainda seria do que de ter visitado a Berlim que se tornou.) As ruas em obras, os desvios inesperados em função das reformas e os canos cor-de-rosa que mantinham provisoriamente o fornecimento de água e gás até tudo ficar pronto, todos esses elementos criam o trajeto de Lola pelo labirinto da cidade. O próprio contexto da incerteza econômica e a música tecno, escolhida pela geração X pela ausência de letras que ultrapassava as barreiras de comunicação entre as Alemanhas ocidental e oriental, pontuam o filme de forma contundente.

Ainda hoje, a estrutura narrativa de Lola me deixa menos intrigada do que as tramas paralelas que são apresentadas com a agilidade de um post no Twitter ou no Instagram: em rápidos flashes, sabemos do futuro de cada uma das pessoas em que Lola tromba no caminho, e eles variam todas as vezes em que a história se repete. De forma anedótica, eles parecem ilustrar a postulação da física quântica de que cada decisão tomada abre um universo paralelo em que a decisão contrária encadeia uma outra série de acontecimentos. As possibilidades não são infinitas, uma vez que cada um dos figurantes já está ligado a um contexto – como a mãe que empurra um carrinho – e de certa forma ao encontro com Lola, de acordo com as leis da Improbabilidade Infinita. Mas são muitas, e a possibilidade de que elas coexistam em algum lugar do espaço é mais fascinante do que as possibilidades em si mesmas.

Da mesma forma que a Berlim de hoje, com seus hipsters ocupando os apartamentos que há quinze anos ninguém queria habitar, me interessa menos, de modo geral me interesso menos pelo resultado do que pelo processo. E, ainda que eu tenha lido há algum tempo que tudo o que vivemos é apenas o prólogo de algo muito melhor, me entristece um pouco ser um prólogo de mim mesma. Tenho saudade de quando eu ainda não conhecia certa música, ou não tinha lido certo livro, de quando vi certa pessoa pela primeira vez: tenho saudade desse momento antes de que uma Lola em desespero trombou em mim e desencadeou o curso dos acontecimentos. Às vezes gostaria de esquecer a história do livro, ou de desaprender uma língua, ou de nunca ter sofrido a decepção que aquela pessoa me causou, só para poder passar pelo processo de descoberta novamente: o caminho sempre é mais interessante do que a resposta, mas o trajeto tem seus momentos morosos até que novos elementos entrem no caminho.

É uma ideia batida que o futuro não existe. É um erro pensar no futuro em termos de anos ou décadas que se desenrolam em eventos que não podemos controlar. Na verdade o futuro é um desdobramento constante do presente, e nesse minuto sabemos exatamente tudo o que está prestes a acontecer, só talvez não valha a pena ficar pensando nisso, sob o risco de se tornar a velhinha excêntrica que abre a cada minuto a caixa de correio,

Deixe um comentário

Contos da era pré-celular

2141
Para ler ouvindo: Samba do Blackberry, Tono

Como se calcula a passagem do tempo? Algumas coisas que você leu ou viu há muitos anos parecem encapsuladas numa época, e é tão engraçado quando triste perceber que revê-las não faz sentido algum. Como um papel muito antigo, cujo conteúdo podemos reviver se o tirarmos da caixa que o protege, mas que também pode se esfarelar no contato com o ar. (Na era da digitalização essa imagem não faz o menor sentido.)

Se fossem refilmados nos dias de hoje, quase todos os episódios de Seinfeld precisariam de um prelúdio em Jerry, George, Kramer e Elaine teriam que explicar que o seu celular quebrou, está fora de área, acabou a bateria ou foi esquecido em casa. A graça atemporal da grande maioria das situações às vezes se acrescenta à graça de que muitos dos apuros que os personagens passam se devem a inexistência do celular, e isso numa série que não foi feita há tanto tempo assim – 25 anos é quase nada. Revejo o episódio em que eles esperam pela vez para jantar, um dos famosos episódios-garrafa em que se sustenta o diálogo ininterrupto durante 25 minutos em um espaço confinado, no caso a ante-sala do restaurante. Enquanto Elaine reclama de fome e Jerry tenta administrar a impaciência dos amigos, George está desesperado para falar com a atual peguete, porque sem dizer a ela onde eles estão o desencontro é inevitável.

Ao mesmo tempo em que parecia mais difícil entrar em contato com as pessoas, parece que também era mais complicado se livrar delas. Jerry tem um amigo de infância, que na verdade é um vizinho que ele só visitava por ter uma mesa de pingue-pongue (“Eu tinha dez anos, caramba!”) e que insiste em ligar para ele e marcar encontros até a idade adulta, mesmo não tendo nada em comum – e ainda por cima sendo aquele tipo de pessoa que fala sozinha e maltrata garçonetes. Hoje em dia, se algum indesejado liga para você, o identificador de chamadas do celular já avisa e você ignora a ligação – e o mesmo se faz com as mensagens, os e-mails e até o inbox do Facebook até que a pessoa simplesmente se toque e desista de falar com você.

No entanto, Seinfeld faz piadas que se aplicam a nós de um jeito que me faz pensar que as nossas relações são apenas uma versão amplificada, acelerada do que eles já eram. Em particular nos episódios em que a sua família ou a família do George aparecem, essa versão tão não-WASP de família (lembrando que Jerry é judeu e Constanza italiano, o que torna as sequências particularmente divertidas para o público brasileiro) com acúmulo de parentes de várias gerações e diferentes graus de parentesco, todos falando ao mesmo tempo sem se dar conta se estão concordando ou discordando uns dos outros ou mesmo se estão falando do mesmo assunto – exatamente como na internet.

Um dia ele comenta sobre a onipresença dos telefones: em casa, no carro, no escritório, orelhões na rua que permitem verificar a sua mensagem armazenada em algum lugar a qualquer hora. “Por que você não permite que as pessoas sintam a sua falta?” Certamente por medo de não fazer falta nenhuma: estou no ônibus, e durante um trajeto de quarenta minutos vejo uma mulher falar ininterruptamente ao celular, com três pessoas diferentes, se despedindo de uma e ligando em seguida para a próxima, como um fumante que acende um cigarro no outro. Ao rever as nove temporadas de Seinfeld durante as férias, percebi que nenhum deles nunca está sozinho. No lugar do George, eu responderia: Prefiro que ninguém perceba que não sente a minha falta.

Deixe um comentário

A verdadeira moral da história

5314
Para ler ouvindo: Queima o sol, Transmissor

Entre as grandes heranças da literatura, como o fato de ninguém nunca ter de fato lido o Drácula de Bram Stoker antes de adaptá-lo ao cinema e de que as novas tecnologias não tenham incentivado nenhum diretor de cinema a transpor as histórias de Júlio Verne, uma das que mais me dá pena é o triste destino dado aos contos de fadas. Os contos que eu cresci ouvindo da minha avó de ascendência alemã eram interessantes, engraçados e tinham uma relação direta com coisas que eu percebia na minha vida. Talvez seja esse o cúmulo da esquisitice: não ter me tornado nerd vendo séries, Star Wars ou lendo quadrinhos, nem mesmo romances de ficção científica, e sim ouvindo contos de fadas nas versões da minha avó.

Um das razões do meu deslocamento, do meu eterno sentimento de inadequação foi ter nascido junto com uma geração que não ouviu mais contos de fadas dos seus pais, mas sim dos filmes da Disney. Parando para analisar, chega a ser irônico que a geração que rotulou os contos de fadas de machistas e conservadores foi a mesma que deturpou as narrativas e as transformou em machistas e conservadoras… Pelo menos nas versões da minha avó, eles eram profundamente libertários e fizeram parte do que me definiu como alguém que queria viver de forma independente e um dia tomar as minhas próprias decisões.

Em primeiro lugar, nem todos os contos de fada tem a ver com a busca da princesa por um príncipe. Normalmente a princesa está atrás de outra coisa, o príncipe é um bônus, quase um efeito colateral (não raramente no sentido negativo, como todas nós já percebemos). A maioria dos contos que sobreviveu tem mulheres como protagonistas, talvez porque a partir de certo momento as mulheres passaram a dominar esse tipo de narrativa e transmiti-las por linhagem feminina, mas as histórias protagonizadas por rapazes são igualmente interessantes e instrutivas: João Sortudo (é como “Hans im Glück” foi traduzido para o português), que mantém o otimismo apesar do mundo estar caindo na sua cabeça, ou o pescador que poupa um peixinho que realiza todos os seus desejos (e a gente sempre não pede a pior coisa possível?). Mas não custa lembrar que a proto-versão da maioria destas histórias, Cinderela inclusive, é Vasalisa, a Sabida, que sai em busca do fogo primal para aquecer sua família e que tem como prêmio extra livrar-se da opressão da mãe/madrasta (depende da versão).

Mencionei “Cinderela”, que ainda conheci como “Gata Borralheira” (minha avó tinha traduções dos contos em português, mas tão antigas quanto ela, tanto que pra mim só existia a “Capinha Vermelha”). A menina em questão, mesmo se você prestar atenção direito na versão da Disney, só quer colocar um vestido bonito e ir ao baile. É o baile de aniversário do príncipe, e ele é o que menos importa, tanto que nem as irmãs invejosas dão muita atenção para ele durante a festa, mais interessadas em saber quem é a moça desconhecida com quem ele dança. Mas, diante da possibilidade de se casar com ele só por calçar o sapatinho, numa atrocidade da qual nenhuma coleguinha de escola queria ouvir falar mas que a hoje a internet popularizou, a irmã mais velha corta o dedão do pé fora. Na história, ela é desmascarada pelos passarinhos amigos da Cinderela (os mesmos que roubaram o vestido de algum varal, pois não há fada-madrinha), que gritam no pórtico da cidade: “Sangue no sapato”, frase até hoje utilizada pela imprensa alemã quando acontece algum escândalo.

A melhor parte era, claro, a interpretação da minha avó. Ainda que hoje em dia exista de fato uma cirurgia de remoção do mindinho do pé para que ele não “fique feio” com as sandálias altas usadas no tapete vermelho, ela considerava isso uma referência a qualquer cirurgia plástica – e qualquer modificação que uma mulher faça em si mesma por causa de algum príncipe. Aliás, o príncipe também é um intruso na vida da Bela Adormecida, conto em que ninguém percebe a incoerência de que a maldição do sono de 100 anos não faz referência alguma a um príncipe: o que acontece é que o príncipe em questão está ali, por acaso, quando a maldição acaba. Em uma versão ilustrada, os cadáveres dos cavaleiros que tinham tentado entrar no castelo antes da hora aparecem pendurados nas árvores do caminho: uma imagem interessante para uma mulher pensar nos seus ex-namorados.

Entre todas as correções que circulam hodiernamente pela internet, uma continua faltando. No conto da princesa e do sapo, o trato para que o sapo recupere a bola da princesa é que ele jante com ela. Ela ignora sua promessa, mas o rei a força a comer do mesmo prato que o sapo, para que ela aprenda a cumprir suas obrigações morais como princesa. O sapo vai forçando a amizade, e o rei sempre obriga a princesa a satisfazê-lo, até que ele insiste em dormir na mesma cama que a princesa – quando esta, já farta, o atira contra a parede. Esse é o choque que desfaz o encanto que o transformara em sapo – e só há muito pouco tempo que finalmente entendi a gravidade da deturpação de um texto literário. Nem a minha avó nunca explicou direito o significado deste final. E passamos gerações beijando sapos, enquanto deveríamos atirá-los contra a parede.

Deixe um comentário

Espelho negro

8347
Para ler ouvindo: A Herança, a Mulher e o Dedo, The Pexes

“Você gosta de assistir séries?” se tornou uma das perguntas mais sem graça a se responder ultimamente. Ainda me lembro de uma época em que as séries live-action (com exceção de Chaves) ocupavam um lugar intermediário entre o cinema e a novela das oito: não nos envergonhávamos de assistir àquilo, mas também não nos orgulhávamos, e raramente se falava disso. Muitos anos se passaram antes que eu soubesse que outras famílias assistiam e o que eles achavam de Anos Incríveis, por exemplo.

Talvez esse seja o problema: os assuntos sobre os quais podíamos falar se tornaram tão vazios, ao passo que a pilha das coisas de que não podemos falar ou cuja opinião já está pronta em algum meme do Facebook – se acreditamos em reencarnação, o que achamos das manifestações do ano passado, se alguém já ouviu falar daquela banda independente – que de repente alguma coisa que só servia naquela horinha que a gente tinha que encher antes de dormir se tornou assunto de conversação. Ou talvez seja aí que se encontra a lacuna: essa horinha antes de dormir já foi preenchida pela leitura (será que eu sou a última pessoa do mundo que lê antes de dormir?), assim como o tipo de leitura já serviu de tema de conversa e mesmo de distinção (no bom sentido) entre as pessoas. E, como todas as séries de televisão são mais ou menos parecidas, o subtexto na verdade é a distinção entre aqueles que podem pagar uma assinatura de TV por assinatura ou Netflix, e os que não podem.

(A expressão no rosto das pessoas quando ouvem que eu não tenho televisão, ainda mais estarrecida do que quando digo que não tenho Facebook, é realmente algo que desejo nunca perder.)

Por motivos que já expressei por escrito, não me considero uma “nerd”, se é que essa denominação ainda vale para quem assiste certas séries. E, com exemplos que também já enumerei, as minhas séries preferidas não dão audiência, são canceladas na primeira ou na segunda temporada e ninguém nunca ouviu falar delas. Mas, se é o caso de mencionar uma série que oficialmente ainda existe mas que vive um eterno hiato, digo que assisto Black Mirror. Além de um apreço maior pelas séries da televisão britânica, esta consegue ser ainda mais off-mainstream em suas duas temporadas de três (03) episódios cada, cada um valendo mais do que temporadas inteiras de outras coisas por aí.

Trata-se de uma série do tipo Além da Imaginação, que não possui um arco de história, mas apenas um tema, que é tratado com um enredo diferente em cada episódio (chamam de “série de contos”, que se oporia às tradicionais, que seriam “série de romance”). O piloto já é uma paulada: o Primeiro-Ministro britânico é chantageado para copular com uma porca em rede nacional de televisão. O episódio, portanto, gira em torno de um ato obsceno que não é mostrado, afinal o que importa é o seu impacto nas pessoas ao redor, incluindo o próprio ministro, e a coletividade, que não é mais composta de eleitores ou cidadãos, mas sim de espectadores que estão mais para consumidores de imagens, totalmente submissos à próxima comoção.

Dispostos num futuro nem utópico nem distópico e não muito distante, os demais episódios – cujo impacto crítico e emocional chega sequer perto do primeiro – são centrados, cada um, no consumo de um tipo de tecnologia pela qual os personagens se deixam dominar, permitindo que a mídia os defina como pessoas. As mídias utilizadas pelos personagens são fictícias, mas são ideias interessantes, como o software que permite à viúva recente conversar com o falecido marido, e que encontram análogos fáceis no cotidiano que já vivemos. De um lado, dá vontade de que algum futuro Steve Jobbs se inspire na série para construi-las no mundo real, como o primeiro fez com os aparatos de Star Trek. Mas, de outro lado, Espelho Negro é a imagem em negativo da série de ficção científica de antigamente: enquanto Jornada nas Estrelas era pontuada pela confiança em um futuro igualitário em que a tecnologia servia de apoio, em Espelho Negro a tecnologia nos submete e afasta.

Paradoxalmente, como toda narrativa interessante, a crítica a esse domínio da mídia sobre nossas vidas chega através de uma das mídias narrativas mais em voga nos últimos anos. Toda televisão, computador, tablet desligado é um “Espelho negro”. Mas é ainda mais perigoso o que eles refletem de nós quando estão funcionando. E que indivíduos realmente acreditem que o que elas assistem na televisão as defina e distinga de outras pessoas é um pensamento assustador.

Deixe um comentário

Amor nos tempos de cólera

8031 ok
Para ler ouvindo: Aimer, Jeanne Moreau

Sexo e política se misturam? Acredito que sim. Como diz o personagem de Kevin Spacey em House of Cards – à parte a sua visão bastante simplória e às vezes até infantil do jogo político -, tudo é sobre sexo, menos o sexo, pois o sexo é sobre poder. Se a divinidade do chocolate pode se juntar com a neutralidade do creme de leite e se transformar nessa entidade incrível que é a ganache, porque sexo e política não podem se amalgamar numa forma parecida? Mas, da mesma forma que a ganache malfeita, a mistura pode azedar, e muito – e não restar outra alternativa além de jogar tudo fora e começar de novo.

Normalmente é chato estar solteira, principalmente porque todos os homens pressupõem que você está à procura de um namorado (ah, e eles também pressupõem que você é heterossexual), mas é particularmente complicado querer encontrar uma cara-metade em época de eleições. Do mesmo jeito que todo mundo é especialista em futebol quando chega a Copa, debatendo meios-de-campo e esquemas táticos, quando se aproximam as eleições majoritárias os interlocutores mais insuspeitos tornam-se especialistas em política econômica, segurança pública e sabe-se lá mais o quê que se acredita ser responsabilidade do governo federal (uma época comecei uma coleção de frases que começassem com “o governo devia fazer alguma coisa…”, mas desisti na que prosseguia “para impedir que meninas engravidem de jogadores de futebol”).

Se as conversas normais já ficam difíceis a cada quatro anos, imagine-se o que acontece numa conversa que pode despertar um interesse amoroso. Porque um diálogo durante um flerte é, ao mesmo tempo, extremamente irrelevante e em que tudo é relevante: pelo bom senso, não se discutem assuntos sérios com alguém que se acabou de conhecer (tudo bem, um sujeito certa vez quis discutir aborto comigo), porém tudo o que se diz é muito significativo e fornece pistas importantes sobre a pessoa com quem se está lidando (ainda que a maioria delas, como num bom romance policial, só faça sentido a posteriori). Então coloque-se essa conversa num contexto em que questões políticas se converteram temporariamente em assunto de bar, e abriu-se o Febeapá do Baixo Augusta. Numa conversa de bar normal, esse assunto já é cansativo e costumo evitá-lo – mas é mais difícil ficar calada quando não há mais interlocutores, e a pessoa que te obriga a conversar com ela, além de ser o único outro ocupante na mesa, tem a atitude de quem considera mulheres meros recipientes de suas ideias fantásticas e não indivíduos com opiniões ou memórias próprias, isso em pleno século XXI, e diante de uma disputa em que um terço dos candidatos à presidência (duas das quais com as maiores chances de chegar ao segundo turno, o que Tancredo Neves deve estar pensando agora?) é mulher.

Não deixa de ser admirável como alguns homens parecem apaixonados pelas próprias opiniões, a julgar pela forma com que a argumentação atropela o bom senso e qualquer objeção contrária que apareça. Infelizmente, preciso me fazer clara me abstendo de exemplos para não parecer sectária, já que a argumentação capenga e o monólogo pseudopolítico (ah sim, porque se é monólogo, não tem como ser político) se encontra em todos os dois, ou três, pratos da balança. Gostaria de ser uma mosquinha para saber se os mesmos indivíduos são tão irredutíveis quando seus interlocutores são outros homens. Mas basta que eu me envolva na conversa – num exemplo surpreendente de como funciona a natureza humana -, e a cena muda de figura: meu interlocutor se irrita, abrevia o assunto e com frequência muda de tema, não raramente com um tom de voz grosseiro e definitivo, do tipo “não quero mais falar disso”. Justiça seja feita, não observo essa reação apenas quando a discussão é política; mas com mais frequência quando o assunto é esse, e a irritação também é maior.

Pois mais que debates políticos com desconhecidos me aborreçam – eu gosto muito do tema, mas infelizmente a banalidade da maioria das opiniões me deixa meio entediada -, eles não deixam de ser essenciais: considero impossível desenvolver um relacionamento com alguém sem saber em que partido ele ou ela vota; trata-se de uma questão de visão de mundo, que se reflete em várias questões cotidianas que acabam reverberando na relação, desde a escolha de um filme para assistir até a educação dos filhos. Por isso, não consigo entender por que, desde os tempos de faculdade, vejo rapazes tão engajados politicamente de mãos dadas com meninas que parecem frequentar muito mais shoppings do que comícios, muito mais “baladinhas” do que botecos pé-sujo, e que observam meio alheias os seus discursos exaltados como se não fizessem a menor ideia do que eles estão dizendo. E continua sendo um mistério como um indivíduo coloca a atividade política no centro da própria existência, mas não considera relevante que a sua consorte acompanhe ou compreenda o que ele está fazendo. Claro que esposas de engenheiros não precisam dominar conceitos de física, nem namoradas de advogados tem que saber a diferença entre homicídio doloso e culposo; mas atravessa os anos a imagem do sujeito barbudo, bradando contra o capitalismo, de braço enganchado com a menina que arruma distraidamente a blusa comprada na Oscar Freire enquanto ele fala.

Naturalmente há mulheres para quem a orientação política de seu consorte é irrelevante, ou relevante apenas para que elas mesmas decidam em quem votar. Nada contra. De minha parte, eu insisto em decidir sozinha com quem eu vou me decepcionar da próxima vez – sejam namorados ou ocupantes de cargos majoritários. E, claro, prefiro esperar o resultado do pleito amornar antes de pensar em sair para paquerar mais uma vez.

P.S.: Falando em sexo – a metade infinitamente mais interessante dessa conversa -, “Violette”, de Martin Provost, continua por obra de milagre em cartaz na cidade. É um filme sem figurantes. E sem iluminação. Seus personagens circulam por ruas estreitas e vazias de Paris, retratada fora dos espaços abertos e públicos que lhe são emblemáticos, sempre sufocada, nublada e noturna como a própria psique da personagem, que só se encontra com a luz do sol no plano final. Violette Leduc, em seus sapatos formando um ângulo errado com a canela, as saias mal cortadas e o chapéu alto demais, forma um contraste chocante com a figura longilínea e impecável de Simone de Beauvoir, e também com a sua maneira coesa e inabalável de ver o mundo e a própria obra: pobre, apaixonada, carente e grudenta, ela escreve mais para manter a atenção da amiga por quem se apaixona do que por ambição literária, no entanto se ressente de qualquer desatenção que as pessoas tenham com seus livros; ainda assim (e lembrando outra grande mulher da literatura, Orides Fontela) não suporta ser ajudada. Talvez sem querer, a narrativa expõe uma contradição da sociedade que finalmente, ou não, aceitou a igualdade de direitos entre os gêneros: é muito mais fácil defender o feminismo diante do discurso ponderado de uma Beauvoir do que do choro e dos gritos de uma Leduc. Para ilustrar minha tese, um homem sentado atrás de mim no cinema, terminado o filme, reclamou que o filme fazia “propaganda barata” da emancipação feminina – como se isso fosse alguma coisa ruim.